Como as Empresas de Fundadores Reduzem a Dependência do Fundador
A delegação falha quando a tarefa muda de mãos e o padrão fica na cabeça do fundador. O trabalho é escrever o critério, não passar a lista de tarefas.
A dependência do fundador é normalmente descrita como um problema de delegação, o que a faz parecer uma falha pessoal. É mais rigoroso descrevê-la como um problema de informação. O fundador detém um padrão que nunca foi escrito, e por isso quem quer que tome a decisão está a adivinhar critérios que não consegue ver.
É por isso que o conselho habitual não funciona. "Largar mais" produz decisões piores, o fundador intervém para as corrigir e a organização aprende que a delegação é provisória. O ciclo aperta.
O que está de facto concentrado
Vale a pena ser preciso sobre o que está no fundador, porque as quatro coisas têm soluções diferentes.
| O que está concentrado | Como se manifesta | O que o transfere |
|---|---|---|
| O padrão | O trabalho é refeito depois de o fundador o ver | Critérios escritos e exemplos trabalhados |
| Quem decide | Há coisas à espera de aprovação que ninguém formalmente exige | Regras explícitas sobre quem decide o quê, com limites definidos |
| O contexto | As pessoas não conseguem pesar um compromisso porque desconhecem a estratégia por trás | Prioridades enunciadas e o raciocínio que as sustenta |
| As relações | Clientes, parceiros ou candidatos só respondem ao fundador | Apresentação deliberada e acompanhamento conjunto durante um período definido |
A maioria dos fundadores tenta resolver as quatro indo a menos reuniões. Só a segunda responde a isso.
Escreva primeiro o padrão
É o documento de maior alavancagem que uma empresa liderada pelo fundador pode produzir, e quase nenhuma o tem. Responde, para as duas ou três decisões que mais importam: o que é bom, que compromissos são aceitáveis e o que nunca pode ser cedido.
Um método exequível: pegar em cinco decisões recentes que o fundador tomou e defenderia, e cinco que reverteu. Para cada uma, escrever o raciocínio — não o resultado, o raciocínio. O padrão é aquilo que se repete nos dez casos, e é normalmente mais curto e mais consistente do que o fundador espera.
Transfira decisões, não tarefas
Delegar tarefas move o trabalho e mantém o critério. Transferir decisões move os dois, e é a única versão que reduz carga. Exige que quatro coisas sejam enunciadas:
- Que decisão está a ser transferida, em concreto.
- A fronteira: o que esta pessoa decide sozinha e a partir de que limiar volta ao fundador.
- O que significa "consultado", se alguém tiver de ser consultado, e até quando.
- O que o fundador faz quando discorda de uma decisão tomada dentro da fronteira.
A quarta é a que determina se tudo o resto se aguenta. Se o fundador reverte decisões dentro da fronteira, a fronteira não existe, e toda a gente aprende isso mais depressa do que aprende qualquer modelo. A posição exequível é aceitar os resultados dentro da fronteira e alterar a fronteira explicitamente se ela se revelar errada.
Construa os líderes que a vão sustentar
As decisões transferem-se para funções, e as funções são ocupadas por pessoas que têm de ser capazes de as tomar. Em muitas empresas de fundadores, a camada de gestão foi promovida por excelência individual e nunca lhe foi dito o que gerir aqui envolve.
O mínimo é uma declaração escrita daquilo por que um líder responde, as rotinas que a suportam — reuniões individuais, reuniões de equipa, revisões de objetivos — e um ciclo de formação sobre as conversas que vão ter de conduzir. É essa a substância do trabalho de liderança e gestão, e é o que faz as decisões transferidas ficarem de pé.
Sequencie por trimestres, não por semanas
Uma sequência realista para uma empresa entre as cinquenta e as cento e cinquenta pessoas:
- Primeiro trimestre. Escrever o padrão para os dois tipos de decisão que mais tempo consomem ao fundador. Definir quem é responsável por quê na camada imediatamente abaixo.
- Segundo trimestre. Transferir o primeiro tipo de decisão com fronteiras explícitas. Estabelecer expectativas para líderes e as rotinas de gestão.
- Terceiro trimestre. Transferir o segundo. Fazer o primeiro ciclo de desempenho em que são os líderes, e não o fundador, a sustentar o padrão.
- Quarto trimestre. Rever o que voltou ao fundador e porquê. Ajustar as fronteiras em vez de voltar a chamar a si as decisões.
A medida do progresso não é quantas reuniões o fundador deixa de ter. É quantas decisões são bem tomadas sem ele e nunca chegam a ser mencionadas.
O que é bom ao fim de dezoito meses
O fundador continua a ser a pessoa com melhor critério na empresa. Isso não muda nem precisa de mudar. O que muda é que esse critério passa a estar disponível como critérios escritos em vez de disponibilidade pessoal, e a organização consegue chegar à mesma conclusão sem o ter na sala.
Há também uma dimensão comercial que vale a pena dizer sem rodeios. A dependência do fundador é uma questão de avaliação da empresa. Qualquer comprador ou investidor em processo de due diligence vai testar quanto da qualidade de decisão é transferível, e uma empresa que mostra padrões escritos, clareza sobre quem decide o quê e uma camada de gestão a funcionar responde bastante melhor a essa pergunta do que outra que depende de o fundador estar em todas as salas.
Co-fundador — Organização e Operações
Francisco Campos
Construiu empresas em crescimento por dentro: primeiro colaborador e depois COO da Onport, até à aquisição pela Farfetch.
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