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Políticas de recursos humanos: as oito primeiras que uma PME precisa (com modelos)

Uma política é uma decisão escrita uma vez, para os gestores deixarem de decidir caso a caso. Estas são as oito primeiras, com o modelo que cada uma deve seguir.

Francisco Campos8 min de leitura

Uma política de recursos humanos é uma decisão que a empresa toma uma vez e escreve, para que os gestores deixem de a tomar outra vez — de forma diferente — sempre que o assunto aparece. Quem começa do zero precisa de oito: teletrabalho e trabalho híbrido; férias e ausências; despesas e equipamento; cadência de desempenho e feedback; promoções e revisão salarial; acolhimento e período experimental; conduta e ferramentas de comunicação; parentalidade e flexibilidade. Escritas em uma página cada, estas oito respondem a quase todas as perguntas recorrentes numa empresa entre as vinte e as trezentas pessoas.

O resto — o manual do colaborador completo, o catálogo de benefícios, o código de ética — pode esperar até as oito estarem em uso e alguém ter encontrado as lacunas.

Para que servem as políticas de recursos humanos

Uma política não é um texto jurídico nem uma declaração de cultura. É a resposta a uma pergunta que já foi feita mais do que duas vezes: posso trabalhar a partir do Algarve em agosto, quem paga o portátil, quando é que os salários são revistos. Enquanto não está escrita, cada uma dessas perguntas custa uma conversa, e a resposta depende de a quem foi feita e do tipo de semana que essa pessoa estava a ter.

A inconsistência é o custo verdadeiro. Duas pessoas em equipas diferentes recebem respostas diferentes à mesma pergunta, ambas as respostas são defensáveis, e a empresa criou em silêncio um precedente que nunca decidiu. Uma política escrita substitui cem pequenas negociações por uma decisão tomada de propósito.

O teste de uma política que vale a pena ter é simples: um gestor consegue responder a partir do documento, sem escalar, e dá a mesma resposta que qualquer outro gestor daria.

As oito primeiras políticas internas a escrever

Ordene-as pela frequência da pergunta, não pela importância aparente do tema. Cada entrada abaixo indica a decisão que a política resolve, quem é o responsável e a única regra de exceção — porque uma política sem caminho declarado para exceções acaba contornada em silêncio, em vez de alterada às claras.

  1. Teletrabalho e trabalho híbrido. Resolve onde o trabalho acontece e que presença a empresa espera. Responsável: a liderança, com a redação a cargo de quem tem a área de Pessoas. Exceção: o gestor direto aprova uma alteração temporária até um mês; qualquer alteração permanente volta à liderança.
  2. Férias e ausências. Resolve como se pedem e aprovam férias, que antecedência é esperada em ausências longas, quanto pode transitar para o ano seguinte e o que acontece num dia de doença. Responsável: quem lidera Pessoas. Exceção: o gestor direto aprova o pedido; acima do limite de transição, só quem lidera Pessoas.
  3. Despesas e equipamento. Resolve o que a empresa paga, o que um colaborador pode comprar sem perguntar, o que precisa de aprovação prévia e quem fica com o portátil quando alguém sai. Responsável: a área financeira, em conjunto com Pessoas. Exceção: acima do limite definido, o responsável pelo orçamento aprova por escrito e antes de a despesa ser feita.
  4. Cadência de desempenho e feedback. Resolve com que frequência um gestor e um membro da equipa se sentam a conversar, o que cobre uma conversa de desempenho e quando acontece o ciclo formal. Responsável: quem lidera Pessoas. Exceção: nenhuma quanto à cadência; o responsável de uma função pode adaptar o formato desde que a frequência se mantenha.
  5. Promoções e revisão salarial. Resolve quando os salários são revistos, quem propõe uma alteração, quem a aprova e o que uma promoção exige para além de bom trabalho. Responsável: o CEO, com quem lidera Pessoas. Exceção: uma alteração fora de ciclo exige aprovação escrita do CEO e um motivo registado.
  6. Acolhimento e período experimental. Resolve o que inclui o primeiro dia, a primeira semana e os primeiros noventa dias, quem responde por cada parte e como é conduzida a conversa de fim de período experimental. Responsável: o gestor que contrata, a partir de um modelo da empresa. Exceção: quem lidera Pessoas pode prolongar o período experimental uma vez, com o motivo por escrito.
  7. Conduta e ferramentas de comunicação. Resolve que ferramenta serve para quê, que tempo de resposta é esperado em cada uma, o que nunca se trata em canal privado e como se levanta uma preocupação sobre comportamentos. Responsável: a liderança. Exceção: nenhuma quanto ao canal para levantar preocupações — não ter exceção é precisamente o objetivo.
  8. Parentalidade e flexibilidade. Resolve o que a empresa acrescenta ao mínimo legal, como se planeia o regresso ao trabalho e que flexibilidade existe nos meses seguintes. Responsável: quem lidera Pessoas, com a área financeira. Exceção: o CEO aprova o que ultrapasse o combinado por escrito, e essa decisão entra na política na revisão seguinte.

Oito documentos, uma página cada, é um primeiro conjunto realista em poucas semanas, não um projeto de um trimestre. Escrever é rápido depois de a decisão estar tomada; a decisão é a parte lenta e pertence à liderança.

A maior parte das políticas falha não porque a regra está errada, mas porque ninguém nomeou quem pode dizer que sim a uma exceção.

O modelo de política

Cada uma das oito deve ter as mesmas seis secções, pela mesma ordem. A uniformidade importa mais do que a elegância: quem leu uma política deve conseguir encontrar a resposta em qualquer outra sem andar à procura.

SecçãoO que tem de dizerO que acontece quando falta
ObjetivoA pergunta a que esta política responde, numa fraseO documento deriva para uma declaração de valores e deixa de ser utilizável
A quem se aplicaTodos os grupos abrangidos e os que ficam deliberadamente de foraPrestadores, trabalho a tempo parcial e quem acabou de entrar geram cada um a sua discussão
A regraA resposta por defeito, escrita de forma clara o suficiente para agirCada gestor decide pelo seu critério e as respostas divergem
Exceções e quem as aprovaO que pode variar, por decisão de quem, e como fica registadoAs exceções são dadas informalmente e passam a ser a política real
ResponsávelUma função nomeada que responde por manter o documento verdadeiroNinguém o atualiza e deixa de corresponder à prática sem que se note
Data de revisãoO mês em que voltará a ser analisadaEnvelhece até alguém descobrir que está errada no pior momento possível

Esqueleto de uma política de teletrabalho

É a política que a maioria escreve primeiro e a que mais vezes fica mal escrita, porque é redigida como aspiração em vez de regra. Uma política de teletrabalho utilizável responde a seis coisas:

  • Elegibilidade. Que funções podem trabalhar à distância e quais não podem, definido por função e não por pessoa.
  • Dias e presença. Quantos dias no escritório, quem decide que dias são, e o que uma equipa pode exigir a todos — um dia fixo comum é muito mais fácil de gerir do que uma contagem flutuante.
  • Equipamento. O que a empresa disponibiliza para trabalhar a partir de casa, o que não disponibiliza, e o que acontece ao equipamento quando alguém sai.
  • Despesas. O que é comparticipado no trabalho a partir de casa, que limite se aplica, e como se pede e aprova o reembolso.
  • Segurança. De onde podem ser acedidos os dados da empresa, que regras se aplicam ao equipamento e à rede, e a quem comunicar a perda de um dispositivo.
  • Revisão. Quando o regime é reavaliado e o que obrigaria a revê-lo mais cedo.

Antes de publicar, confirme o texto contra o regime legal do teletrabalho em Portugal, fixado pela Lei n.º 83/2021, de 6 de dezembro, que estabelece regras mínimas. Onde a lei fixa um mínimo, é a lei que manda, e essa verificação pertence a um advogado.

Três perguntas que vale a pena responder antes de começar

Precisamos de um manual do colaborador?

No início, não. Um manual do colaborador junta políticas que já existem e já são usadas; produzi-lo antes de as decisões estarem tomadas é como uma empresa acaba com quarenta páginas que ninguém abre. Escreva as oito como documentos separados de uma página, coloque-as onde toda a gente as encontra, e monte o manual quando encontrar algo se tornar o problema.

Quantas políticas são demais?

A contagem é a medida errada. O teste é saber se cada política continua a ser usada: uma que não foi consultada nem aplicada durante um ano ou cobre uma situação que nunca acontece, ou foi substituída em silêncio pelo costume. Nesta dimensão, entre oito e quinze políticas internas é o normal. Para além disso, o risco não é a burocracia em abstrato — é os gestores deixarem de as ler, e deixarem de ler todas ao mesmo tempo.

Quem deve aprovar exceções?

Uma função nomeada por política, e nunca quem está a pedir. Um critério que funciona: o gestor direto para tudo o que tenha custo local e reversível; o responsável pela política para tudo o que crie precedente; o CEO para tudo o que mexa com dinheiro. Registe todas as exceções no mesmo sítio: na data de revisão, o padrão dirá se a regra está errada. Uma política que precisa de exceções constantes não está a ser desrespeitada — está desatualizada.

Onde isto encaixa

As políticas são a parte mais barata de um sistema de pessoas e a mais fácil de deixar a meio, porque nada parece partir-se quando faltam. O custo aparece noutro sítio: no tempo que um fundador gasta em decisões que deviam ter sido tomadas uma única vez. Decidir o que as oito devem dizer numa empresa concreta, e escrevê-las numa forma que os gestores usem mesmo, é o trabalho de Políticas e Benefícios.

Para ler a seguir: os sistemas de gestão de que uma empresa de 50 a 300 pessoas precisa, que coloca as políticas ao lado dos sistemas de que dependem, e clareza de funções em equipas em crescimento, porque boa parte das exceções a políticas é, no fundo, falta de clareza sobre quem decide.

Francisco Campos

Co-fundador — Organização e Operações

Francisco Campos

Construiu empresas em crescimento por dentro: primeiro colaborador e depois COO da Onport, até à aquisição pela Farfetch.

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