Formação de líderes: o que um programa interno deve ter (e o que não precisa)
A maior parte da formação em liderança ensina conceitos e não muda nada na segunda-feira. Um programa interno de seis sessões, construído sobre as rotinas e os modelos da própria empresa, faz o contrário.
Um programa de formação de líderes deve ensinar as rotinas que os gestores já têm no calendário, e não uma teoria de liderança. Seis sessões ao longo de dez a doze semanas chegam: reuniões individuais, feedback, objetivos, conversas de desempenho, decisões e delegação, e as conversas que toda a gente adia. Cada sessão corre sobre os modelos da própria empresa e termina com o gestor a levar algo que vai usar na semana seguinte. Mais do que isto tende a ser um curso; menos do que isto nunca chega às partes difíceis.
A maior parte da formação em liderança falha por uma razão que nada tem a ver com o formador. Ensina conceitos — um modelo de liderança, um quadro de motivação, um inventário de personalidade — e devolve as pessoas a uma semana que não mudou. O gestor volta com vocabulário novo para aquilo que já fazia e sem alteração nenhuma no que faz. Dois meses depois ninguém consegue apontar uma reunião que decorra de forma diferente.
Formação de líderes: o que o programa tem mesmo de cobrir
O programa não é um corpo de conhecimento. É a lista de rotinas que um gestor desta empresa tem de conduzir, pela ordem em que aparecem no calendário. Se a empresa tem um formato de reunião individual, essa é a primeira sessão. Se as avaliações acontecem em março, a sessão de desempenho fica em fevereiro. O programa é um ensaio do modelo de gestão, e o kit do gestor é a matéria.
Isto vale para a formação de novos gestores e para o gestor experiente que entrou no trimestre passado. Quem já geriu noutro lado não precisa de aprender o que é feedback; precisa de aprender como se dá feedback aqui, em que formulário e contra que expectativas. Juntar os dois grupos na mesma turma costuma ser a decisão certa, e a mais barata.
| Sessão | O que o gestor fica capaz de fazer | Artefacto em que pratica | Espaçamento |
|---|---|---|---|
| Reuniões individuais | Conduzir uma conversa quinzenal cuja agenda pertence à outra pessoa, e manter o registo do que ficou combinado | A agenda de reunião individual e o documento de notas partilhado da empresa | Semana 1 |
| Feedback | Dar feedback específico perto do acontecimento e pedir feedback de volta sem a conversa desmoronar | A estrutura de feedback usada nas avaliações, praticada sobre situações reais recentes | Semana 3 |
| Objetivos e prioridades | Escrever objetivos de equipa que alguém de fora consegue ler e perceber, e dizer o que não é prioridade | O modelo de objetivos da empresa para o trimestre em curso | Semana 5 |
| Conversas de desempenho | Explicar uma avaliação por palavras próprias e preparar a conversa antes de a ter | O formulário de avaliação e os critérios de calibração | Semana 7 |
| Decisões e delegação | Dizer que decisões são suas e quais são da equipa, e entregar trabalho sem o ir buscar de volta | A lista de decisões da equipa e um trabalho real a ser delegado | Semana 9 |
| As conversas difíceis | Abrir uma conversa sobre desempenho insuficiente, salário ou saída sem a adiar mais um mês | A abertura escrita de uma conversa real que cada gestor anda a evitar | Semana 11 |
Regras de desenho que decidem se resulta
O conteúdo importa menos do que cinco decisões de desenho. Erradas, o melhor material do mundo acaba numa pasta que ninguém abre.
- Construído sobre os modelos da própria empresa. O documento da reunião individual, a folha de objetivos, o formulário de avaliação. Se os gestores praticam numa ficha genérica e depois encontram outro formulário no trabalho, o programa ensinou a coisa errada.
- Casos da empresa, anonimizados. Situações reais do último ano, sem nomes nem detalhes que identifiquem alguém. Um caso de escola deixa toda a gente confortável; um caso real produz a discussão que era mesmo precisa ter.
- Espaçado por dez a doze semanas. Dois dias fora parecem eficientes e quase nada sobrevive. Os gestores precisam de quinze dias entre sessões para correr a rotina mal uma vez e voltar com perguntas.
- Um grupo de pares que se mantém. Os mesmos oito a doze gestores do princípio ao fim. Boa parte do valor aparece nos vinte minutos em que dois deles descobrem que têm o mesmo problema com o mesmo processo.
- O líder do gestor envolvido. Não dentro da sala, mas informado: pergunta pela rotina nas suas próprias reuniões individuais e espera-se que a pratique. Um programa cujo patrocinador nunca mais o menciona é lido, corretamente, como opcional.
O que não precisa de lá estar
Três coisas ocupam a maior parte do orçamento de um programa de liderança médio e são as que menos rendem.
- Testes de personalidade como espinha dorsal. Um perfil dá uma conversa agradável e um mau programa. Explica porque é que uma rotina é desconfortável para um gestor em concreto; não ensina a rotina. Use meia sessão se gosta da ferramenta, nunca o eixo do programa.
- Sessões motivacionais. O orador externo, a energia na sala, as notas que ninguém relê. São memoráveis e não mudam nada na segunda-feira, porque nada ali fica preso a um calendário.
- Modelos genéricos sem uma rotina por trás. Qualquer quadro conceptual que não consiga apontar a um modelo da empresa é uma aula de vocabulário. Se a empresa não o usa, não deve ser ensinado no programa da empresa.
Como saber se resultou
Resista a medir isto com um inquérito de satisfação no fim da última sessão. Esses números falam da sala, não do trabalho. Procure antes sinais que se vejam.
| O que olhar | O sinal observável | Quando olhar |
|---|---|---|
| Reuniões individuais | Estão no calendário e continuam a acontecer numa semana má | Dois meses depois da última sessão |
| Objetivos | Todas as equipas têm objetivos escritos que alguém de fora lê e percebe | Fim do primeiro trimestre completo |
| Avaliações | Os gestores explicam as suas próprias decisões em vez de remeter a conversa para os RH | O primeiro ciclo de avaliação depois do programa |
| Feedback | As pessoas conseguem nomear algo que lhes foi dito entre ciclos, e mais ou menos quando | Dois trimestres depois |
| Delegação | O trabalho desceu e ficou lá, em vez de voltar em quinze dias | Um trimestre depois |
| Conversas difíceis | Os problemas que a empresa já conhecia estão a ser abertos, e não arrastados | Seis meses |
Nada disto aparece no primeiro mês, e vale a pena dizê-lo à administração antes de começar. Uma rotina de gestão tem de sobreviver a um ciclo completo — um trimestre de objetivos, uma avaliação, uma saída difícil — antes de se poder afirmar que pegou. Quem promete uma mudança visível à sexta semana está a descrever entusiasmo, que passa, e não hábito, que não passa.
Perguntas que vale a pena resolver primeiro
Formação de líderes ou coaching?
Formação primeiro, coaching depois, e respondem a perguntas diferentes. A formação dá ao grupo as mesmas rotinas e a mesma linguagem, que é o que torna a gestão de uma empresa consistente em vez de pessoal. O coaching trabalha a dificuldade específica de uma pessoa e é uma forma cara de resolver aquilo de que oito gestores precisam por igual. A sequência útil é um programa para todos e depois coaching para os dois ou três que carregam algo que o grupo não resolve.
Quem deve dar a formação: interno ou externo?
Interno, com ajuda externa para o construir. As sessões correm melhor quando quem está à frente da sala é o responsável de pessoas ou um gestor sénior respeitado, porque consegue sustentar os exemplos da casa e responder à pergunta incómoda a seguir. O que costuma valer a pena comprar fora é o desenho — a matéria, os modelos, a condução da primeira turma — e depois trazer a segunda turma para dentro.
Quando um novo gestor deve começar?
Nos primeiros três meses no papel, e antes do primeiro ciclo de avaliação. A janela importa: um gestor que já levou dois trimestres inventou a sua própria maneira de fazer tudo, e o programa passa a ser uma correção em vez de um ponto de partida. Se a próxima turma só abrir daqui a seis meses, dê-lhe os modelos e um par no primeiro dia, e deixe o programa vir a seguir.
Onde é que isto pertence
Um programa de gestores não é um produto de formação. É a parte do sistema de liderança e gestão que torna as rotinas reais — o ponto em que um processo documentado passa a ser algo que um gestor consegue mesmo conduzir numa terça-feira à tarde.
Duas das sessões merecem leitura antes de desenhar o resto: como conduzir uma reunião individual que vale a hora e o sistema de avaliação de desempenho que os líderes usam. Se estas duas rotinas estiverem fracas, o programa não tem nada para ensinar.

Co-fundadora — Pessoas e Gestão
Ana Reis
Constrói as fundações de Pessoas de empresas em crescimento — e acompanha-as até funcionarem no dia a dia.
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