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Formação de líderes: o que um programa interno deve ter (e o que não precisa)

A maior parte da formação em liderança ensina conceitos e não muda nada na segunda-feira. Um programa interno de seis sessões, construído sobre as rotinas e os modelos da própria empresa, faz o contrário.

Ana Reis7 min de leitura

Um programa de formação de líderes deve ensinar as rotinas que os gestores já têm no calendário, e não uma teoria de liderança. Seis sessões ao longo de dez a doze semanas chegam: reuniões individuais, feedback, objetivos, conversas de desempenho, decisões e delegação, e as conversas que toda a gente adia. Cada sessão corre sobre os modelos da própria empresa e termina com o gestor a levar algo que vai usar na semana seguinte. Mais do que isto tende a ser um curso; menos do que isto nunca chega às partes difíceis.

A maior parte da formação em liderança falha por uma razão que nada tem a ver com o formador. Ensina conceitos — um modelo de liderança, um quadro de motivação, um inventário de personalidade — e devolve as pessoas a uma semana que não mudou. O gestor volta com vocabulário novo para aquilo que já fazia e sem alteração nenhuma no que faz. Dois meses depois ninguém consegue apontar uma reunião que decorra de forma diferente.

Formação de líderes: o que o programa tem mesmo de cobrir

O programa não é um corpo de conhecimento. É a lista de rotinas que um gestor desta empresa tem de conduzir, pela ordem em que aparecem no calendário. Se a empresa tem um formato de reunião individual, essa é a primeira sessão. Se as avaliações acontecem em março, a sessão de desempenho fica em fevereiro. O programa é um ensaio do modelo de gestão, e o kit do gestor é a matéria.

Isto vale para a formação de novos gestores e para o gestor experiente que entrou no trimestre passado. Quem já geriu noutro lado não precisa de aprender o que é feedback; precisa de aprender como se dá feedback aqui, em que formulário e contra que expectativas. Juntar os dois grupos na mesma turma costuma ser a decisão certa, e a mais barata.

SessãoO que o gestor fica capaz de fazerArtefacto em que praticaEspaçamento
Reuniões individuaisConduzir uma conversa quinzenal cuja agenda pertence à outra pessoa, e manter o registo do que ficou combinadoA agenda de reunião individual e o documento de notas partilhado da empresaSemana 1
FeedbackDar feedback específico perto do acontecimento e pedir feedback de volta sem a conversa desmoronarA estrutura de feedback usada nas avaliações, praticada sobre situações reais recentesSemana 3
Objetivos e prioridadesEscrever objetivos de equipa que alguém de fora consegue ler e perceber, e dizer o que não é prioridadeO modelo de objetivos da empresa para o trimestre em cursoSemana 5
Conversas de desempenhoExplicar uma avaliação por palavras próprias e preparar a conversa antes de a terO formulário de avaliação e os critérios de calibraçãoSemana 7
Decisões e delegaçãoDizer que decisões são suas e quais são da equipa, e entregar trabalho sem o ir buscar de voltaA lista de decisões da equipa e um trabalho real a ser delegadoSemana 9
As conversas difíceisAbrir uma conversa sobre desempenho insuficiente, salário ou saída sem a adiar mais um mêsA abertura escrita de uma conversa real que cada gestor anda a evitarSemana 11

Regras de desenho que decidem se resulta

O conteúdo importa menos do que cinco decisões de desenho. Erradas, o melhor material do mundo acaba numa pasta que ninguém abre.

  • Construído sobre os modelos da própria empresa. O documento da reunião individual, a folha de objetivos, o formulário de avaliação. Se os gestores praticam numa ficha genérica e depois encontram outro formulário no trabalho, o programa ensinou a coisa errada.
  • Casos da empresa, anonimizados. Situações reais do último ano, sem nomes nem detalhes que identifiquem alguém. Um caso de escola deixa toda a gente confortável; um caso real produz a discussão que era mesmo precisa ter.
  • Espaçado por dez a doze semanas. Dois dias fora parecem eficientes e quase nada sobrevive. Os gestores precisam de quinze dias entre sessões para correr a rotina mal uma vez e voltar com perguntas.
  • Um grupo de pares que se mantém. Os mesmos oito a doze gestores do princípio ao fim. Boa parte do valor aparece nos vinte minutos em que dois deles descobrem que têm o mesmo problema com o mesmo processo.
  • O líder do gestor envolvido. Não dentro da sala, mas informado: pergunta pela rotina nas suas próprias reuniões individuais e espera-se que a pratique. Um programa cujo patrocinador nunca mais o menciona é lido, corretamente, como opcional.

O que não precisa de lá estar

Três coisas ocupam a maior parte do orçamento de um programa de liderança médio e são as que menos rendem.

  • Testes de personalidade como espinha dorsal. Um perfil dá uma conversa agradável e um mau programa. Explica porque é que uma rotina é desconfortável para um gestor em concreto; não ensina a rotina. Use meia sessão se gosta da ferramenta, nunca o eixo do programa.
  • Sessões motivacionais. O orador externo, a energia na sala, as notas que ninguém relê. São memoráveis e não mudam nada na segunda-feira, porque nada ali fica preso a um calendário.
  • Modelos genéricos sem uma rotina por trás. Qualquer quadro conceptual que não consiga apontar a um modelo da empresa é uma aula de vocabulário. Se a empresa não o usa, não deve ser ensinado no programa da empresa.

Como saber se resultou

Resista a medir isto com um inquérito de satisfação no fim da última sessão. Esses números falam da sala, não do trabalho. Procure antes sinais que se vejam.

O que olharO sinal observávelQuando olhar
Reuniões individuaisEstão no calendário e continuam a acontecer numa semana máDois meses depois da última sessão
ObjetivosTodas as equipas têm objetivos escritos que alguém de fora lê e percebeFim do primeiro trimestre completo
AvaliaçõesOs gestores explicam as suas próprias decisões em vez de remeter a conversa para os RHO primeiro ciclo de avaliação depois do programa
FeedbackAs pessoas conseguem nomear algo que lhes foi dito entre ciclos, e mais ou menos quandoDois trimestres depois
DelegaçãoO trabalho desceu e ficou lá, em vez de voltar em quinze diasUm trimestre depois
Conversas difíceisOs problemas que a empresa já conhecia estão a ser abertos, e não arrastadosSeis meses

Nada disto aparece no primeiro mês, e vale a pena dizê-lo à administração antes de começar. Uma rotina de gestão tem de sobreviver a um ciclo completo — um trimestre de objetivos, uma avaliação, uma saída difícil — antes de se poder afirmar que pegou. Quem promete uma mudança visível à sexta semana está a descrever entusiasmo, que passa, e não hábito, que não passa.

Perguntas que vale a pena resolver primeiro

Formação de líderes ou coaching?

Formação primeiro, coaching depois, e respondem a perguntas diferentes. A formação dá ao grupo as mesmas rotinas e a mesma linguagem, que é o que torna a gestão de uma empresa consistente em vez de pessoal. O coaching trabalha a dificuldade específica de uma pessoa e é uma forma cara de resolver aquilo de que oito gestores precisam por igual. A sequência útil é um programa para todos e depois coaching para os dois ou três que carregam algo que o grupo não resolve.

Quem deve dar a formação: interno ou externo?

Interno, com ajuda externa para o construir. As sessões correm melhor quando quem está à frente da sala é o responsável de pessoas ou um gestor sénior respeitado, porque consegue sustentar os exemplos da casa e responder à pergunta incómoda a seguir. O que costuma valer a pena comprar fora é o desenho — a matéria, os modelos, a condução da primeira turma — e depois trazer a segunda turma para dentro.

Quando um novo gestor deve começar?

Nos primeiros três meses no papel, e antes do primeiro ciclo de avaliação. A janela importa: um gestor que já levou dois trimestres inventou a sua própria maneira de fazer tudo, e o programa passa a ser uma correção em vez de um ponto de partida. Se a próxima turma só abrir daqui a seis meses, dê-lhe os modelos e um par no primeiro dia, e deixe o programa vir a seguir.

Onde é que isto pertence

Um programa de gestores não é um produto de formação. É a parte do sistema de liderança e gestão que torna as rotinas reais — o ponto em que um processo documentado passa a ser algo que um gestor consegue mesmo conduzir numa terça-feira à tarde.

Duas das sessões merecem leitura antes de desenhar o resto: como conduzir uma reunião individual que vale a hora e o sistema de avaliação de desempenho que os líderes usam. Se estas duas rotinas estiverem fracas, o programa não tem nada para ensinar.

Ana Reis

Co-fundadora — Pessoas e Gestão

Ana Reis

Constrói as fundações de Pessoas de empresas em crescimento — e acompanha-as até funcionarem no dia a dia.

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